SOS para a Casa de Retiro São Francisco

Ponto de Vista - Publicada: 20/04/2011 – Tribuna da Bahia

 

Fui na certeza de não me decepcionar, na manhã do dia 4 de abril próximo passado, à Casa de Retiro São Francisco e a encontrei fechada. Um pálido senhor de idade à sua porta dava notícia sobre o encerramento das atividades da instituição.

Só me cabe deplorar o fato, que subtrai dos baianos um bem precioso, querido de todos os conterrâneos pela carga simbólica de que se reveste.

A Casa de Retiro São Francisco está situada num espaço físico privilegiado, um verdadeiro oásis em meio à “selva de pedras” multiplicada em seu entorno. Ontem, mais do que hoje, nesta época de grande especulação, a situação era bem melhor.

Local aprazível, arejado, afastado do barulho infernal em que se transformaram muitas de nossas ruas e avenidas residenciais, tornou-se “objeto do desejo” dos especuladores imobiliários, sob o pretexto de que sua venda deveria ser realizada para pagar dívidas da Ordem Franciscana, capítulo de Recife. Assim li e vi na mídia.
Escamoteia-se, naturalmente, o verdadeiro motivo da transação financeira, pois se revelado, o crime seria “inafiançável”.

Os que defendem a preservação do edifício, lutam contra a “ameaçadora” transformação daquela Casa de repouso e recolhimento, onde se pode respirar ainda o ar puro, em espigões de alto luxo.

Nunca é tarde para manifestar opinião a favor de uma causa justa. Por essa razão, agrego estas linhas a outros textos divulgados na imprensa, sobre o lamentável presságio. Desejo demonstrar compreensível repúdio contra mais uma “apropriação” de um bem desta cidade. Capital primeira do Brasil, Salvador tem sido alvo de muitos “esbulhos” cometidos contra o seu rico patrimônio.

Com efeito, a Cidade da Bahia, como a denominavam os “antigos”, tem sido desfalcada de bens valiosos, sejam os de custo elevado, sejam os de conteúdo simbólico. No final de contas, tem sido expropriada, com a passividade de nossa gente, do seu patrimônio tangível e intangível.

Será que a ampla edificação não poderia sobreviver ao tempo? Por que não lhe conceder uma nobre destinação? Por que não se criar uma Fundação para atender a artistas baianos, jovens do interior, da capital e do exterior, para nela se hospedarem, durante o tempo em que vivem em Salvador?

Ou, também, porque não convertê-la numa casa de recolhimento para idosos, cujas famílias possam responsabilizar-se por suas despesas? Será que na Bahia só existem demolidores? Será que só produz ou acolhe pessoas que querem desfigurar a cidade, torná-la, cada vez mais, irrespirável?

A Casa de Retiro é um bem da Bahia, doado aos baianos, pelos baianos. O terreno, segundo soube, foi oferecido pelo empresário Norberto Odebrecht; o prédio, construído por sua empresa, com a participação financeira de famílias baianas, não podendo essas dádivas caírem no esquecimento.

Foram esses os generosos doadores: Adolpho Espinheira Freire de Carvalho, Armando Joaquim de Carvalho, Deocrécio Gomes de Andrade, Geraldo Suerdick, Antonio Rocha Vasconcelos, Raul Schmidt, Viúva Mário C. Santos, Ana Brandão Costa.

À frente do empreendimento, de uso e interesse meramente religioso, estava o dinâmico e operoso frade alemão, grande figura da Ordem Franciscana na Bahia, frei Hildebrando Kreithaup, também criador do Círculo Operário da Bahia.

Os católicos da Bahia estão se reunindo e se movimentando em favor da permanência da Casa de Retiro e das irmãs religiosas, que ali vivem há mais de 50 anos. Em sua vida de reclusão e de entrega, essas freirinhas sempre estiveram voltadas para obras sociais, em benefício dos desassistidos.

Se depender de uma posição em favor da Casa de Retiro, pelo que representa para nós baianos, sinto-me comprometida com a sua defesa. Defesa corajosa em que estão envolvidas muitas pessoas de fé, grupo ativo de desinteressados em luta contínua pela nobre causa.

Comenta-se, abertamente, que empresários estrangeiros estão investindo financeiramente na Cidade do Salvador e no Estado da Bahia. Será que não poderão repetir o que está acontecendo em Itaparica? Lá, na antiga casa de férias, ou de repouso, não sei bem, pertencente ao Instituto Feminino da Bahia, certo estrangeiro adquiriu a propriedade para nela instalar a Fundação Sakatar.
 
Esta instituição de utilidade pública acolhe artistas do Brasil e do estrangeiro, a fim de que ali desenvolvam trabalhos artísticos de qualidade. Já tive oportunidade de escutar alguns desses jovens músicos em exibição na Biblioteca Juracy Magalhães Junior situada em Itaparica, terra de Xavier Marques, Virgilio Damásio, João Ubaldo Ribeiro e outros ilustres baianos, praticamente abandonada por motivos que escapam ao objetivo deste texto.

É inadmissível cruzar os braços diante de uma causa justa. Há que se buscar uma solução. Afinal, os baianos são, ou não, criativos? Que seja lançado esse desafio.
 

Consuelo Pondé de Sena

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Uma resposta a SOS para a Casa de Retiro São Francisco

  1. Alírio Cavalcanti disse:

    Li o artigo escrito pela ilustre Consuelo Pondé, como li o importante artigo da eminente Professora Yara Athaíde Bandeira, cada uma trazendo razões que fortalecem nossa decisão de lutar pela Causa do RETIRO SÃO FRANCISCO.

    Aliás, é tão DESCABIDA essa iniciativa de planejar TRATORAR E DEMOLIR A CASA DE RETIRO SÃO FRANCISCO, que significa TRATORAR E DESTRUIR parte SUBSTANCIAL DA HISTÓRIA CRISTÃ DA BAHIA que não vou me estender refletindo o conteúdo dos artigos apresentados pelas ilustres baianas. Vou sim, parar no título do artigo da Consuelo Pondé (“SOS” que significa: SOCORRO!) e na frase: “É inadmissível cruzar os braços diante de uma causa justa. Há que se buscar uma solução. Afinal, os baianos são, ou não, criativos? Que seja lançado esse desafio.”

    Pronto, tanto o pedido de SOCORRO quanto o DESAFIO já foram lançados pela Consuelo Pondé e agora REAVIVADO com uma QUESTÃO LATENTE:

    Por onde andam os políticos que contaram com os votos dos CRISTÃOS-CATÓLICOS?

    Até agora aguardamos a presença destes para lutar ABERTAMENTE pela Causa JUSTA do RETIRO SÃO FRANCISCO que requer a REABERTURA DA CASA E A EXTINÇÃO DO PROJETO DE DEMOLIÇÃO.

    Conselho: Não se esquivem de lutar pela CAUSA DA REABERTURA DO RETIRO SÃO FRANCISCO – Pois a COMUNIDADE BAIANA está atenta e estranha essa ausência e silêncio que incomoda.

    Acabei de lembrar de Campanha da Fraternidade recente, cujo lema era: “NÃO SE PODE SERVIR A DOIS SENHORES”.

    Atenciosamente

    Alírio Cavalcanti

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