Mais uma crônica do Frei Hildebrando datada de 24 de junho de 1978

Meus Prezados Rádio Ouvintes:

Li outro dia uma “estorieta” muito interessante, muito animadora que encerra, ao mesmo tempo, uma preciosa lição de vida – razão porque desejo reproduzi-la aqui, pelos menos resumidamente.

Sebastião – fora operado, havia dois dias apenas. Ele mandou dizer ao seu amigo José que desejava receber uma visitinha. Este, dentro de meia hora, já se encontrava no hospital. Ficou surpreso com a rapidez da recuperação do rapaz. Sebastião estava alegre, radiante, esparramando à sua volta aquele sorriso otimista que sempre o caracterizava.

Confortavelmente recostado num carro de rodas, desfiou inclusive meia dúzia de piadas.

A certa altura, surgiu o enfermeiro, toda de branco, dizendo: “Sebastião, o médico pediu uma radiografia para ver se tudo está OK”. Respondeu este: “Oh, Joia! – como me sinto bem! – farei minha primeira caminhada após a operação. Posso dispensar o caro?” Respondeu o enfermeiro: “Ótimo – Nada melhor para Você do que um pequeno exercício, mesmo se doer um pouco! Hérnia operada se cura, caminhando”. E, o enfermo tentou levantar-se. Sem pressa! Gemendo um pouco, naquele extremo cuidado de quem anda com o corpo cravejado de pontos e suturas!!!… Tentou levantar-se e caiu sentado.

“Cantei vitória cedo demais” – desabafou, entristecido Sebastião. “Não estou tão forte como pensava”…

A mãe quis ajuda-lo; o enfermeiro veio em auxílio também!

Mais duas ou três tentativas foram realizadas! E todas sem nenhum sucesso. Comentou Sebastião: “É… o corpo humano é um saco de misérias”.

“Quem sabe a gente leva Você, de carro, mesmo” – ajuntou a mãe.

Então – José, seu amigo, sorrindo, pediu licença; desde o início havia observado cuidadosamente a cena e reparando inclusive que faltava um detalhe – e disse: “Pessoal  – e se o moço procurasse desafivelar o cinto de segurança?”… Todo mundo se olhou e um sorriso atrapalhado esvoaçou pelo quarto cheirando a remédios…

Meus Amigos, a vida tem disso! – Há tanta gente que não avança – não progride – curte fossas eternas – inferniza vidas alheias e a própria – cai sentado a cada passa, por um único motivo: “NÃO DESAFIVELA O CINTO! Não escancara horizontes! Não se desprende de suas coisinhas. Não desgruda de seus problemas pessoais. Vive amarrado a cadeira de rodas de seu EGOCENTRISMO escravizante”.

Meus Amigos, desde aquele dia, José muito trem pensado na cena de seu amigo Sebastião, tentando levantar-se da cadeira, sem sucesso. E, meus Irmãos, o mundo anda cheio de Sebastiões afivelados.

Felicidade pela libertação! – pede amplitude! – pede liberdade interior.

Felicidade afivelada não se levanta da cadeira! – morre subnutrida, indigente!

Felicidade verdadeira é como a brisa – o vento e o mar: precisa de espaço aberto, sem amarras – para sobreviver – seguir em frente e seus segredos cantar! Tenho dito.

 

 

 

 

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