Artigo de jornal A Tarde

(Fonte Jornal A Tarde do dia 18 de maio de 2013)

Religião

A língua e o dente: Casa de Retiro

 Pe. GILSON MAGNO DOS SANTOS

magno.gilson@ig.com.br

Um provérbio adequado para um momento certo: “a língua passa no dente que dói mais”. Digo isso a propósito da Casa de Retiro São Francisco, que sempre ocupa as páginas dos principais jornais da nossa Cidade. A propósito da Casa de Retiro, lí com vivo interesse e acentuada atenção o belíssimo artigo de Antonio Risério, no jornal A Tarde do dia 11 de maio de 2013. O escritor se refere a uma carta recebida do Grupo de Amigos da Casa de Retiro São Francisco, constituído por pessoas sérias e altamente engajadas na vida cristã. Afirmou o escritor: “O que denunciam é simples e já se vai tornando tristemente corriqueiro na vida desta cidade degradada: O Reitor de São Francisco (foi assim que aprendi a chama-lo) corre o risco de sumir do mapa. E é justamente isso o que elas querem impedir. Com razão”.

O Papa Bento XVI, em um dos seus ensinamentos, nos instruiu a respeito dos espaços religiosos como oásis dentro das cidades com as características atordoantes da pós-modernidade. O cristão tem o direito de preservar os espaços constituídos para o culto e para o repouso corporal e espiritual. A Casa de Reitor São Francisco representa a nova Damasco para muitas pessoas que ali se encontraram consigo mesmas e com o Cristo. Quantas conversões maravilhosas. Quantos encontros autênticos com a fé cristã. Quantas obras de fé jorraram das mãos das religiosas hospitaleiras para a população carente não só dá circunvizinhança, mas de toda a Cidade do Salvador.

Preguei muitos retiros espirituais, encontros, Seminários de vida no Espírito Santo. Era impossível para quem chegasse ou quem já se encontrava na Casa de Retiro não se irmanar pelos ideais do Cristo e pelo serviço da Caridade. Precisamos preservar sua memória. Esta é uma tarefa de todos os baianos e daqueles que aqui estando se identificam com a causa. Entendo que este apelo deve ser fortificado, organizado e motivado, pois o que acontece com a Casa de Retiro já aconteceu com outras realidades que incorrem na perda da memória da Cidade.

 Querido leitor, a cidade, qualquer que seja, guarda a sua memória. Com facilidade se destrói e se constrói sem respeito algum pelas pessoas, pelo meio ambiente. Recordo-me do que ocorreu no horto florestal quando do grande desmatamento para a construção de prédios. Os animais vagavam diuturnamente, com cânticos tristes, à procura de uma nova moradia. Aqueles lamentos tocavam a minha alma. Quanto à Casa de Retiro não só os animais foram retirados, mas uma comunidade cristã solidamente edificada conheceu o êxodo pelas Igrejas e Capelas de Brotas.

A língua passa no dente que dói mais, no dente da Casa de Retiro. Em uma comunidade de pensantes, bastaria reconhecer a memória ali presente para ser preservada. Assim, sem preservar a nossa história, seremos facilmente presas do capitalismo selvagem e do mercantilismo desumano. Os documentos históricos devem ser preservados, mas para muitos estes estão somente nas escritas, nos papéis. A memória da Cidade se encontra nos seus habitantes, no seu modo de ver e de viver, nas suas casas, nos seus templos, nos seus palácios, nas suas danças, nas suas músicas, nas suas exéquias.

O escritor Risério afirma: A carta fala ainda de outra dimensão, “sob o aspecto imaterial, ela (a Casa de Retiro) é representativa de uma cultura humanista, animada por uma identidade baiana religiosa e voltada para a evangelização, assistência social, sociabilidade e cultura. Numa era de desumanização e formalismo, ela atua como um oásis de acolhimento e valorização humana que encanta a todos os frequentadores e a comunidade por ela assistida, fazendo com que até os hospedes ocasionais voltem outras vezes para este agradável convívio”. Deixo o meu abraço fraterno e minha oração para os membros do Grupo da Casa de Retiro São Francisco. Coragem! Nunca desanimem da luta! Esta luta é de todos nós. Caríssimos leitores, defendam a memória da nossa querida Cidade. Caso contrário, os nossos pôsteres só terão imagens frias para conhecer a memória que foi barbaramente sepultada.

 PE. GILSON MAGNO DOS SANTOS / CAPELA DO CANELA-SALVADOR-BA

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